Brincar é para todos

Uma cidade que respeita as diferenças

Em Erechim, no Rio Grande do Sul, a inclusão escolar é prioridade nas escolas públicas. Garantida a todos, a educação de qualidade coloca em foco a construção da cultura lúdica, que tem seus desafios e suas conquistas, como relatam as educadoras da rede municipal.

MARIA SALETE DE MOURA TORRES é pedagoga com especialização em Atendimento Educacional Especializado e mestrado em Psicopedagogia. Atua como professora de Educação Especial da Secretaria Estadual do Rio Grande do Sul, coordenadora da Educação Inclusiva da Secretaria Municipal de Educação de Erechim e professora da Faculdade Anglicana de Erechim.

DANIELE VANESSA KLOSINSKI é especialista em coordenação, orientação e supervisão escolar e coordena a Divisão de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação de Erechim. Formou-se em Pedagogia pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI) e cursou mestrado em Educação na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS).

Ilustrações: Estúdio Rebimboca
Ilustrações: Estúdio Rebimboca Header do Card

Mapa de desenvolvimento

População: 102.906 habitantes (estimativa IBGE, 2016)
Índice de Desenvolvimento Humano: (IDH) 0,776 (2010) (Fonte: Atlas Brasil 2013 Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento)
Rede municipal: 15 escolas de Educação Infantil
Atendimento: 4.096 crianças (2.128 em creche e 1.968 na pré-escola)

A proposta de Educação Inclusiva escolar em Erechim vem se efetivando no dia a dia. Os desafios são grandes, mas a cada ano o município colhe os frutos de um trabalho sério e comprometido com o respeito às diferenças. A Educação Infantil constitui-se como uma etapa com características próprias: se subdivide em creche, até 3 anos e 11 meses, e pré-escola, de 4 a 5 anos e 11 meses. A expansão da oferta de atendimento na Educação Infantil caracterizou-se como uma das responsabilidades dos gestores municipais e sua principal preocupação, pois é necessário que esse atendimento aconteça em espaços próprios para a infância.

O aumento da oferta trouxe uma questão importante: a de incluir todas as crianças no processo educacional, principalmente as que apresentavam alguma deficiência, acreditando que todo sujeito aprende. A proposta de Educação Inclusiva na Educação Infantil do município de Erechim respeita as individualidades dos sujeitos e o brincar como mediador nas aprendizagens das crianças.

Das 15 escolas que oferecem Educação Infantil, sete dividem o local com instituições de Ensino Fundamental, na maioria em um único prédio, porém possuem espaços de atendimento separados; as oito escolas restantes funcionam em espaços exclusivos. Ao pensarmos em propostas pedagógicas de trabalho nas instituições, torna-se necessário projetar estruturas físicas de qualidade, que proporcionem aprendizagem às crianças, espaços onde elas possam brincar. Como afirmam os estudos de Dourado, Oliveira e Santos em A Qualidade da Educação: Conceitos e Definições, a gestão escolar deve apresentar grande discernimento sobre a garantia de padrões mínimos de qualidade, o que inclui a igualdade de condições para o acesso, permanência e desempenho escolar. No caso de escola para crianças pequenas, essa preocupação torna-se ainda maior, levando em consideração as especificidades de cada faixa etária.

A sociedade deve escrever uma nova história educacional, sem o reflexo do contexto preconceituoso e da cultura da discriminação, tendo como diretriz o respeito às diferenças em uma Educação Inclusiva norteada pelos direitos humanos e pela equidade.

Na sociedade atual, o contexto educacional sofre ainda influencia do processo histórico-social de exclusão das pessoas com deficiência. Na contemporaneidade podemos conferir avanços como Braile, Libras, tecnologias, comunicação alternativa e aumentativa... porém ainda constatamos preconceito em vários ambientes, por exemplo: falta de acessibilidade nas ruas e nos prédios, pouca oferta no mercado de trabalho, discriminação e barreiras atitudinais em algumas escolas.

Aspectos legais e pesquisas acadêmicas orientam a sociedade a escrever uma nova história educacional, sem o reflexo do contexto preconceituoso e da cultura da discriminação, tendo como diretriz o respeito às diferenças na proposta da Educação Inclusiva, norteada pelos direitos humanos e equidade, direcionada para o direito a educação de todos.

No município de Erechim, estado do Rio Grande do Sul, a Educação Inclusiva é realidade. O trabalho pedagógico segue o princípio Todos na Escola - Respeito às Diferenças, que objetiva incluir todos os estudantes no ensino regular/comum. Oferece a modalidade da Educação Especial nos níveis da Educação Infantil e Ensino Fundamental e na modalidade da Educação de Jovens Adultos. A partir de 2009, com o lançamento da Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva e as legislações que normatizaram o documento, a mantenedora (secretaria municipal de Educação) iniciou o trabalho para atender a clientela que estava fora da escola regular/comum.

As escolas de Educação Infantil não atendiam crianças com deficiência, então começou a implantação das Salas de Recursos Multifuncionais com o objetivo de oferecer atendimento educacional especializado (AEE) no contraturno escolar. O trabalho de Educação Especial foi iniciado em 2009, com três professores que faziam itinerância nas escolas, enquanto as salas estavam sendo montadas e atendiam 11 alunos. Atualmente, sete professoras ainda trabalham no sistema de itinerância e atendem 37 crianças com deficiência (auditiva, física, síndrome de Down, paralisia cerebral e transtorno do espectro autista) incluídas no ensino regular na Educação Infantil. Todas as escolas possuem salas de recursos multifuncionais e professor com formação em AEE. Os professores trabalham em duas escolas dando suporte pedagógico na sala de recursos multifuncionais e apoio no trabalho de inclusão escolar.

Anualmente, a mantenedora lança edital de matrículas para as escolas públicas municipais e nele há um item que prioriza a matrícula do público-alvo da modalidade de Educação Especial. A Secretaria Municipal de Educação de Erechim adota como referência o conceito de Educação Especial utilizado na Política Nacional de Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva em seu Projeto Político-Pedagógico (PPP) e este direciona o trabalho pedagógico das escolas. Acreditamos que o aprimoramento da qualidade do ensino regular e a adição de princípios educacionais válidos para todos os estudantes resultarão naturalmente na inclusão escolar.

Influência positiva para todos os pequenos

A inclusão de crianças com deficiência na Educação Infantil tem consequências positivas, elas não são discriminadas pelos seus pares e desde cedo são estimuladas e vão avançando no processo de aprendizagem. Para a professora Julhane Maria Kalles, que atua atualmente no AEE na EMEI Ruther A. Muhlen com crianças com deficiência e transtorno do espectro autista:

O AEE na Educação Infantil realiza um trabalho constante de estimulação precoce, envolvendo a linguagem, a criatividade, a imaginação, o desenvolvimento motor, as percepções, enfim, tendo como objetivo o desenvolvimento integral da criança. Esta estimulação se dá basicamente por meio do brincar. Brincando e interagindo com a criança o professor tem condições de perceber as reais necessidades de acordo com a fase em que ela se encontra. Nosso papel é saber quando e como interferir. É preciso se envolver com prazer na brincadeira e não utilizá-la para desenvolver isso ou aquilo na criança, mas, sim, como prática que é própria na infância, e assim o aprendizado acontece.

Trabalhar na inclusão escolar de crianças com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação é acreditar que o ser humano aprende, é garantir condições de acesso, permanência e sucesso escolar. Para Maria Teresa Mantoan, nem todas as diferenças necessariamente inferiorizam as pessoas. Há diferenças e há igualdades — nem tudo deve ser igual, assim como nem tudo deve ser diferente.

O AEE objetiva complementar ou suplementar a formação, disponibilizando ser-viços, recursos de acessibilidade e estratégias que facilitem a plena participação no processo de ensino-aprendizagem. Todas as escolas públicas municipais ofertam o atendimento e as professoras que nele atuam participam de reuniões de estudo, promovidas pela mantenedora, para socializarem experiências pedagógicas e leituras realizadas mensalmente. Para a professora de AEE Andréia Paula Ceron, que atua na EMEI Irmã Consolata:

O brincar no AEE é fundamental, assim como em qualquer fase da infância. É sempre adaptado de acordo com cada deficiência, mas atende o principal objetivo: divertir-se. A partir deste, exploramos o universo da criança, trabalhando os aspectos sociais, motores, cognitivos, as atividades de vida diária, respeitando as habilidades de cada uma e ampliando-as. Também é realizada a confecção e a adaptação de jogos e brincadeiras para serem utilizados na sala de aula do ensino comum.

Quando se fala em escola inclusiva, se fala naquela que valoriza a multiplicidade do ser humano e fortalece a aceitação das diferenças individuais. É dentro dela que aprendemos a conviver, contribuir e construir juntos um mundo de oportunidades reais — não obrigatoriamente iguais — para todos. O brincar é fundamental na infância de todas as crianças, para a professora de AEE Julhane Maria Kalles:

Acredito que para a criança com deficiência o brincar traz consigo a afirmação do eu e o respeito pelo outro, melhorando as questões de socialização. Neste sentido, percebe-se que brincando socializam com o grupo e conseguem se inserir nele. Isso eleva muito a autoestima da criança e, por consequência, melhora seu desempenho nas demais áreas. Nessa perspectiva muitas vezes o professor do AEE decide pelo atendimento coletivo. Não vejo outra forma senão o brincar como um fazer pedagógico, levando em conta sua importância no desenvolvimento da criança.

Crianças brincando com diversidade

Planejar a inclusão e eliminar barreiras

As escolas com o AEE criam possibilidades de quebra no paradigma do preconceito e trabalham com a consciência de que as crianças com deficiência são responsabilidade de todos os educadores e profissionais que atuam na escola e o brincar é um dos facilitadores no processo de inclusão escolar. O trabalho pedagógico que objetiva a inclusão escolar deve ser pensado e planejado por todos os profissionais da escola e ainda ter como meta o desenvolvimento cognitivo de todos, respeitando os tempos, ritmos e estilos de aprendizagem. Incluir não é somente oferecer matrícula. Nessa perspectiva, para a professora Andréia Paula Ceron:

Criança que brinca é saudável, desenvolve-se de forma global. Através do brincar podemos criar e recriar hipóteses. Para as crianças com deficiência, o brincar tem a mesma função social, cognitiva, emocional e motora que para qualquer outra criança. Brincar é sonhar, amar, imaginar o lindo mundo da fantasia. Brincar é ser feliz, é ser criança, é aprender.

O AEE trabalha com adaptações de estratégias, produção de jogos e adequação de materiais e tem por intenção organizar e elaborar recursos pedagógicos que promovam a acessibilidade e eliminar as barreiras que limitam a construção da aprendizagem plena, integrando e proporcionando a participação de todos. Na escola inclusiva, por meio da interação com o professor e os colegas, o aluno constrói o conhecimento de acordo com suas potencialidades, expressando suas ideias livremente e participando de forma ativa das tarefas de ensino, se desenvolvendo como cidadão, sendo respeitado nas suas diferenças.

As escolas com o AEE criam possibilidades de quebra no paradigma do preconceito e trabalham com a consciência de que as crianças com deficiência são responsabilidade de todos os que atuam na escola e o brincar é um dos facilitadores no processo de inclusão escolar.

Na Proposta de Educação Inclusiva do município também acontece a "bidocência", em que dois professores atuam nas turmas com crianças com limitações de autonomia na alimentação, locomoção e higiene. O trabalho objetiva lidar com toda a turma, respeitando as especificidades de quem tem deficiência. Periodicamente, os professores de AEE orientam e acompanham as atividades desses dois profissionais.

Incluir é diariamente buscar eliminar as barreiras atitudinais do preconceito e da discriminação. Todos os anos, as professoras que atuam no AEE desenvolvem projeto com os pais ou responsáveis pelos alunos que frequentam o atendimento para esclarecer sobre a importância do brincar, da estimulação motora, cognitiva e sensorial. Nas atividades do projeto, elas procuram mostrar que toda a criança é igual, somente algumas possuem especificidades devido à deficiência, transtorno do espectro autista (TEA), transtorno global de desenvolvimento (TGD) ou alta habilidade/superdotação. Trabalhar pedagogicamente na perspectiva da Educação Inclusiva é pensar a criança como sujeito aprendente, respeitando suas limitações e potencialidades.

Na proposta de Educação Inclusiva, a equipe de apoio ao processo ensino-aprendizagem é constituída nas escolas de Educação Infantil por: diretor (gestor), coordenador pedagógico, professor de AEE, professor eleito pelos seus pares representando-os (um do turno manhã e outro do turno tarde) e professor de apoio ao processo ensino-aprendizagem (professor do quadro-geral indicado pela direção da escola em parceria com a mantenedora). A equipe é a facilitadora do processo de inclusão e sucesso escolar de todos os estudantes ereúne-se periodicamente para planejar estratégias e possíveis encaminhamentos, orientando o processo de ensino-aprendizagem. A cada semestre é realizado um levantamento diagnóstico de todos os que apresentam dificuldades na aprendizagem, ele facilita o acompanhamento e mapeamento dos desafios educacionais da escola.

Crianças brincando com diversidade

A mantenedora, em sua proposta de Educação Inclusiva, realiza reuniões de estudo, informativas e de socialização de experiências com os professores de apoio ao processo ensino-aprendizagem mensalmente. Eles são mediadores da inclusão na escola, pois trabalham diretamente com os pais de crianças com e sem deficiência, os escutam e quando necessário fazem os encaminhamentos, por causa do trabalho intersetorial, para as secretarias da Saúde e Ação Social/Cidadania.

A vantagem de envolver os pais

O professor de apoio ao processo ensino-aprendizagem é responsável pela coordenação da equipe juntamente com o diretor da escola e pelo trabalho da relação família e escola. Anualmente, ele elabora e desenvolve projeto com os pais e/ou responsáveis de todos os alunos, com o objetivo de enfatizar a importância da participação deles no processo de aprendizagem das crianças, e do esforço conjunto de família e escola para o sucesso escolar. Nesse trabalho, cada professor leva em conta as necessidades da comunidade educativa. A professora de apoio ao processo ensino-aprendizagem Kely Daiane Machajewski e a equipe de apoio da EMEI Lucas Vezzaro trabalham com os pais de maneira alegre e lúdica:

No decorrer dos projetos, percebemos que não só as crianças se divertiam e aprendiam com as atividades mas também os adultos que acabam recordando a infância deles e aos poucos "se permitindo brincar". Muitos adultos esquecem-se de brincar com seus filhos, em função da correria diária e dos inúmeros compromissos que assumem. Oportunizar estes momentos também é lembrá-los da necessidade do brincar; que é saudável para todos. O projeto foi construído com base nas atividades que desenvolvemos com as crianças em sala de aula e os pais, ao verem as crianças participando com alegria e entusiasmo de tudo o que foi proposto, têm mais segurança em relação ao trabalho dos professores. As crianças "sabiam brincar", cantar, dramatizar, enfim, demonstravam que para elas aquilo era normal. Nosso trabalho foi reconhecido ainda mais. Recebemos elogios das famílias e neste ano (2016) iniciamos o projeto em junho, mas em maio já estávamos sendo "cobradas" por algumas famílias, pois queriam participar do projeto que foi desenvolvido no ano anterior.

O projeto com os pais compromete-os com a aprendizagem dos filhos e com o trabalho da escola. A cada encontro o número de participantes aumenta, um comenta com o outro quanto foi agradável o encontro na escola. Para o sucesso da inclusão escolar, precisamos oferecer aos pais momentos de socialização de dúvidas, inquietudes, angústias e alegrias. Assim a professora Kely destaca:

Muitos foram os motivos que nos levaram a pensar em atividades que adultos e crianças pudessem participar juntos. Dentre eles destacamos: a alegria das crianças ao verem seus familiares brincando com elas; a Educação Infantil como lugar de acolher a todos; a segurança que as crianças mostram quando seus familiares as acompanham na escola. Elas passam muito tempo longe deles e por isso precisamos oportunizar momentos afetivos e divertidos para todos. Ao brincar, as crianças internalizam conceitos, compreendem os diversos papéis sociais, entendem o funcionamento das regras, buscam estratégias para resolver suas dificuldades momentâneas, exploram os ambientes, socializam suas experiências de vida e, aos poucos, constroem aprendizagens.

Trabalhar com os pais/responsáveis de crianças com e sem deficiência é respeitar as diferenças, ressignificar, transformar o olhar da escola, pensando não somente na adaptação do estudante, e sim na transformação do contexto escolar segundo as necessidades dos mesmos; é trabalhar na perspectiva da inclusão, rompendo barreiras humanas e arquitetônicas, criando novos conceitos, dando novos sentidos ao conviver com o diferente.

Na escola inclusiva, a por meio da interação com o professor e os colegas, o aluno constrói o conhecimento de acordo com suas potencialidades, expressando suas ideias livremente e participando de forma ativa das tarefas de ensino, se desenvolvendo como cidadão.

Historicamente, o brincar constitui uma prática cultural da criança. Nas diferentes sociedades, desde muito pequenas as crianças brincam, algo que é próprio da cultura infantil, sejam elas brincadeiras tradicionais, envoltas de uma determinada cultura, brincadeiras de faz de conta, nas quais interpretam diferentes papéis, brincadeiras de rua, ou até mesmo brincadeiras utilizando-se de "brinquedos". No entanto, ainda prevalece em muitos lugares brinquedos vistos como adornos, usos divulgados pelas imagens das antigas instituições filantrópicas e religiosas, aparecendo em cima de armários, distante das crianças, como menciona a pesquisadora Tizuko Morchida Kishimoto em Jogos Infantis. Por meio da brincadeira, a criança aprende, compreende-se e compreende o mundo que a cerca, posiciona-se diante dos desafios e proposições, constrói estratégias e resolve problemas, é sua forma de ser e estar na sociedade. A escola que atende crianças em idade de Educação Infantil deve respeitar a criança e seus conhecimentos, as suas experiências vividas, seu modo de viver e imaginar, de fantasiar e conhecer. O professor em sua amplitude deve considerar esses aspectos no momento de planejar suas ações, com vistas a envolver a criança nesse processo educativo, considerando suas habilidades e limitações e proporcionando processos de significação.

O depoimento da coordenadora pedagógica Franciane Carla Marchetto da EMEID João Aloísio Hoffmann expressa a importância do brincar nessa etapa, trazendo os elementos presentes na proposta de trabalho desenvolvida pelas instituições do município de Erechim:

As primeiras experiências são as que marcam mais profundamente a pessoa, e quando positivas, tendem a reforçar, ao longo da vida, as atitudes de autoconfiança, cooperação, solidariedade e responsabilidade. A criança aprende brincando. As brincadeiras fazem parte do cotidiano dela e desempenham papel importante em seu desenvolvimento. A partir das experiências que vivencia ela vai construindo e reconstruindo saberes, expressando suas fantasias, medos e desejos, sentimentos e conhecimentos.

Os espaços organizados pelas escolas compõem o pano de fundo de todo o trabalho com crianças pequenas. Ambientes acolhedores e desafiadores apresentam para a criança inúmeras possibilidades, inserindo-a num contexto de atuação e participação, sentindo-se parte daquele local não apenas como mero frequentador mas como protagonista de seu próprio desenvolvimento. Toda a brincadeira acontece em um espaço que se transforma em lugar quando apresenta aspectos motivadores. Ao pensar na proposta pedagógica que priorize a infância, o brincar e a criança, modificou-se a disposição e organização das Escolas Municipais de Educação Infantil (EMEIs), proporcionando espaços alternativos, que antes eram considerados sem utilidade. Como exemplo: os parques infantis foram construídos com materiais recicláveis, como pneus, tubos de concreto, canos, entre outros.

Trabalhar na perspectiva da inclusão implica romper barreiras humanas e arquitetônicas, criar novos conceitos, dar novos sentidos à convivência com o diferente. Trabalhar em conjunto com os pais de crianças com e sem deficiência é respeitar as diferenças, ressignificar o olhar da escola, pensando na transformação do contexto escolar segundo as necessidades delas.

Perceber que o desenvolvimento das crianças é o foco do trabalho faz com que se transforme uma sala administrativa em um lugar para brincar. Foi o que aconteceu em uma das unidades do Programa Proinfância. As professoras gestoras da EMEI Dra. Vera Beatriz Sass transformaram o ambiente em uma sala de jogos, muitos deles construídos por quem trabalha na instituição, baseados na realidade das crianças e da escola.

Pensar na criança faz com que as propostas de modificação, ampliação e disponibilidade de espaços para brincar se tornem fundamentais ao processo de desenvolvimento da aprendizagem. A brincadeira é a cultura da criança, desde que nasce ela vai se descobrindo e se percebendo no ambiente. Inicialmente, o corpo da criança é o seu brinquedo mais curioso e descobrir a si mesmo é sua tarefa principal. Por isso ela coloca a mão na boca, se diverte com barulhos proporcionados pela boca e faz o exercício de pegar seus dedos dos pés, entre outros. O trabalho das escolas de Educação Infantil inicia-se com os bebês e o professor tem o papel de promover as diferentes possibilidades de interações e experiências. Esses estímulos promovem o desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e social dos pequenos e perpassam toda a Educação Infantil.

Todo objeto tem a possibilidade de integração na brincadeira da criança, sua imaginação vai sempre além daquilo que está posto, aos olhos dela tudo pode ser criado, recriado, imaginado e fantasiado. Na escola se ampliam as possibilidades de exploração, por meio da socialização com as diferentes crianças, com os adultos, a interação com diversos materiais e brinquedos, o enfrentamento de desafios que lhes são propostos, enfim este é o lugar onde tudo e todos se envolvem no processo de construção de saberes e conhecimentos lúdicos necessários à infância.

Brincadeira levada a sério

O planejamento do professor é fundamental nesse processo, visto que a Educação Infantil apresenta especificidades que são características dessa faixa etária. O pesquisador Junqueira Filho, em Linguagens Geradoras: Seleção e Articulação de Conteúdos em Educação Infantil destaca que o professor não é tido como a única fonte de seleção de conteúdos, nem o único sujeito a articular os conteúdos que compõem a proposta pedagógica. Ao organizar o espaço educativo, o profissional deve levar em consideração diversos aspectos, oferecer um ambiente acolhedor, bem como uma seleção das atividades que levem em conta a concepção do professor e da criança envolvida.

Crianças brincando com diversidade

Se for orientado pela Diretriz Curricular Nacional para a Educação Infantil, o trabalho pedagógico terá sempre como ponto de partida a brincadeira e levará em conta vivências, interações e experiências das crianças. No município de Erechim, a brincadeira é tratada como assunto sério e é considerada o principal agente de aprendizagem, pois nela todos os sujeitos do processo são ativos e tornam-se brincantes, sejam eles crianças ou adultos. Nessa ótica, a coordenadora pedagógica Franciane destaca a importância do planejamento para pensar e elaborar propostas de trabalho na escola:

É o planejamento que vai dar suporte e segurança ao professor em sala de aula e garan-tir a continuidade do processo de aprendiza-----gem para as crianças. Ele é organizado pela equipe diretiva, mas principalmente pela coordenadora pedagógica, que se reúne com as professoras para juntas discutirem e prepararem as atividades a serem desenvolvidas.

Destacamos que as escolas que ofertam Educação Infantil no município possuem um planejamento integrado, organizado mensal ou quinzenalmente. Os professores contam com a orientação do coordenador pedagógico, que acompanha e faz sugestões durante as discussões. O papel da coordenadora é fundamental, pois além de orientar, ela deve cuidar para que não se perca o foco de trabalho da instituição, que sempre será a criança com e sem deficiência, transtorno global do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação e, por consequência, o brincar.

No trabalho pedagógico diário, vivenciamos uma crise de paradigmas que gera medos, inseguranças, incertezas e insatisfações. Mas acreditamos que este seja o momento de ousar e de buscar alternativas para realizar as mudanças necessárias que resultem em escolas verdadeiramente inclusivas.

A secretaria municipal de Educação desenvolve formações periódicas nas escolas, que considera essenciais e têm como proposta atender as necessidades específicas de cada uma. Para isso também há o Grupo de Estudos da Educação Infantil (GEEI), que se reúne em encontros mensais, o Fórum Regional de Educação Infantil e o Fórum Regional de Educação Inclusiva, no qual pesquisadores de todo o Brasil compartilham seus conhecimentos. A coordenadora Franciane ressalta sobre os momentos de formação continuada que ocorrem em paradas específicas durante o ano letivo:

Enquanto professores, estamos em um processo contínuo e inacabado de aprendizagem;é necessário o aprender e reaprender constantes. Quem se envolve e busca uma formação apresenta um trabalho diferenciado, uma vez que reavalia e reflete sobre suas práticas aperfeiçoando algumas e dispensando outras.

Para que isso ocorra, acredita-se que as escolas necessitam ter a sua frente uma equipe de direção e coordenação pedagógica consistente, com sensibilidade para com a criança e seu desenvolvimento, além de toda organização burocrática da instituição. Essa equipe deve ter capacidade de mobilizar o professor para que tenha a sensibilidade e o conhecimento necessário sobre a sua importância enquanto profissional que desenvolve o trabalho com crianças pequenas, as quais se encontram em permanente desenvolvimento e reconhecimento de si mesmas e do mundo que as cerca.

Sobre esses aspectos, a diretora Aliana Endler Bonavigo, da EMEI Dra.Vera Beatriz Sass, salienta a importância da gestão e como ela deve ocorrer na escola de Educação Infantil:

A gestão democrática prevê que todos os setores e a comunidade possam participar ativamente das questões envolvendo o cotidiano escolar. Por isso, é fundamental que o gestor oportunize momentos de reflexão, reuniões periódicas, atividades que possam sensibilizar os educadores sobre sua prática diária em sala de aula. Consequentemente percebemos na prática as mudanças significativas, através do comprometimento dos educadores com atividades lúdicas, criativas e diferenciadas, destacando a afetividade, pois, sem a mesma, não podemos conceber a Educação Infantil.

Em Erechim, inclusão é conviver e interagir com o outro, sem separação, em regime escolar único que respeita o diferente. No trabalho pedagógico diário, vivenciamos uma crise de paradigmas que gera medos, inseguranças, incertezas e insatisfações, Mas acreditamos que este seja o momento de ousar e de buscar alternativas na coletividade da escola que nos direcionem para realizar as mudanças necessárias e transformá-las em escolas verdadeiramente inclusivas.

Nesse processo de inclusão escolar, o brincar é o principal instrumento utilizado pelos educadores. Na perspectiva de que a criança gosta de brincar, a escola deve agir para mediar a construção da cultura do brincar nas comunidades educativas. No Atendimento Educacional Especializado, as professoras trabalham a estimulação precoce e as habilidades de cada criança, de maneira lúdica e alegre. Todo agente desse processo educativo é incluído por meio da interação com o outro, com os objetos e os espaços que se encontram a sua disposição. As crianças trazem consigo vivências e saberes que constituem os códigos culturais que dominam e utilizam no contexto escolar. As brincadeiras são a alma do cotidiano na Educação Infantil e são promotoras do conhecimento produzido pelas crianças.

Um dos pilares da proposta de Educação Inclusiva são os projetos desenvolvidos com as famílias, que ensinam e resgatam o brincar respeitando as individualidades de cada criança. Os muitos responsáveis pela Educação no município de Erechim acreditam que incluir é possível, portanto a Educação Infantil atua na perspectiva de que a comunidade educativa constrói a cultura lúdica e o respeito às diferenças.

Referências


BRASIL. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Disponível em: www.mec.gov.br.
ERECHIM. Proposta Político-Pedagógica da Secretaria Municipal de Educação de Erechim/RS. SMEd.
FORMOSINHO, Júlia; KISHIMOTO, Tizuko Morchida; PINAZZA Mônica Appezzato. Pedagogias da Infância. Dialogando com o Passado. Construindo o Futuro. Porto Alegre: Artmed, 2007.
JUNQUEIRA FILHO, Gabriel de Andrade. Linguagens Geradoras: Seleção e Articulação de Conteúdos em Educação Infantil. Porto Alegre: Mediação, 2006.
KISHIMOTO, Tizuko Morchida. Jogos Infantis: o Jogo, a Criança e a Educação. Petrópolis: Vozes, 1993.
MANTOAN, Maria Teresa. Inclusão Escolar: O Que É? Por Quê? Como Fazer? São Paulo: Editora Moderna, 2003.

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