Brincar é para todos

Música da Cultura Infantil: significado e importância

É uma música no corpo, próxima ao outro, com o outro. Sua prática promove um convívio alegre, diferenciado, e, ao observar regras e princípios de cada brinquedo, as crianças têm a oportunidade de fazer o "exercício de ser criança" e o espaço ideal de iniciação na cidadania: plena, por índole e direito, sensível, inteligente e desafiadora.

LYDIA HORTÉLIO é formada em Música (Piano, Educação Musical e Etnomusicologia), em estudos no Brasil, Alemanha, Portugal e Suíça. Pesquisou e documentou a Cultura da Criança, a Música da Cultura Infantil e as manifestações musicais da zona rural de Serrinha, no sertão da Bahia. Participou de cursos, palestras, oficinas e exposições no Brasil e no exterior e de projetos de Educação e cursos de formação de professores. Fundou, em Salvador, a Casa das Cinco Pedrinhas, instituição de pesquisa e difusão da Cultura da Criança e da Música.

Ilustrações: Estúdio Rebimboca
Ilustrações: Estúdio Rebimboca Header do Card

Entendendo-se Cultura Infantil como as experiências, as descobertas, o fazer das crianças entre elas mesmas, buscando a si e ao outro em interação com o mundo, ou seja, toda multiplicidade e riqueza dos brinquedos de criança, teremos que buscar a compreensão da Música da Cultura Infantil dentro desse mesmo contexto, como parte que é de um mesmo corpo de conhecimento, de um conhecimento com o corpo, nele incluídas, naturalmente, a sensibilidade, a inteligência e a vontade, como dimensões da vida na complementaridade e inteireza.

No vasto espectro de manifestações da Cultura da Criança, ou seja, das práticas do ser-humano-ainda-novo, há um bloco significativo de brinquedos, onde música, palavra, movimento e o outro formam um todo indivisível, um organismo, do qual nenhuma parte pode ser subtraída sem vir a perder o sentido, sua feição, funcionalidade e completude. O "Atirei o pau no gato..." não acontece, simplesmente, se não nos damos as mãos, cantamos a cantiga girando na roda e, ao final, abaixamos todos conjuntamente para dizer "Miau!", em feliz algazarra...

Fica claro, portanto, que a Música da Cultura Infantil é uma música para ser brincada. É brincando que as cantigas dos brinquedos tomam vida e, dito ao contrário, é a música de cada brinquedo cantado ou ritmado que move a ação específica de cada um desses fatos culturais. E vamos constatar ainda que mesmo entre brinquedos do mesmo gênero, as rodas de verso, por exemplo, não há duas iguais. Antes encontramos variações incontáveis, geradas pelos impulsos da cantiga que empresta a cada roda sua individualidade, caráter particular, atmosfera única e movimento próprio. A música determina a maneira de ser, o fraseado plástico, a linguagem específica de movimento, a movimentação própria de cada brinquedo.

criancas brincando

O extenso repertório dos brinquedos de criança se forma no livre exercício da infância, ou seja, no convívio natural e espontâneo das crianças entre elas mesmas, e carrega em seu bojo, necessariamente, os arquétipos da cultura de origem, elementos da natureza do lugar, os traços do tempo histórico, tecidos na alegria e inventividade das crianças. E são as experiências vividas por meio desses brinquedos que formam o "território sagrado da infância" — o lugar dentro, onde as artes encontram substrato e fincam suas raízes, potencializando a manifestação criadora.

A dinâmica do brinquedo

A prática da Música da Cultura Infantil promove o desenvolvimento do sentido de origem e nutre o húmus da identidade cultural. A força de afirmação de uma nação depende do exercício de sua cultura, do conhecimento de sua história, da Educação de seu povo, e pressupõe amplo e detalhado esforço no sentido da conscientização de cada indivíduo como ser único, elemento de um povo e membro da família humana. Os brinquedos com música são instrumentos valiosos nesse processo, exercendo uma ação viva, inteligente e alegre que pode nos conduzir à roda das crianças do mundo e ao encontro dos povos.

Estes brinquedos surgem na vida das crianças desde muito cedo. Aos acalantos e brincos da mais tenra infância, de iniciativa materna ou dos mais próximos, acrescentam-se cada vez mais brinquedos movidos por parlendas, cantilenas e cantigas, onde os gestos iniciais da melódica infantil se insinuam a par com o elemento rítmico da palavra. E, aos poucos, vão chegando os brinquedos cantados, com toda multiplicidade e riqueza de seu repertório, e os brinquedos ritmados, de grande variedade rítmica e expressão corporal diferenciada, versões e variantes surpreendentes, praticados intensamente pelas crianças de hoje. As fábulas, os contos e as histórias maravilhosas também fazem parte do universo infantil, cujos relatos se configuram como verdadeiros rituais que se revestem de música, desde o "tom" particular da contação, onde não faltam as "falas" dos animais e de muitos outros personagens, apresentados com sugestivas parlendas, cantilenas e cantigas, próprias desse gênero especial da Música da Cultura Infantil. Finalmente, surgem na adolescência as rodas de verso, como verdadeiros ritos de passagem, onde forma, estruturação, conteúdo poético, atmosfera particular e movimentação, mesmo guardando dimensões da infância, apontam para a nova etapa a ser vivida. Todos esses brinquedos, fatos culturais de variada ação dinâmica e diferentes qualidades de movimento, nascem das necessidades de crescimento do ser-humano-ainda-novo, e se configuram como gêneros da Música da Cultura Infantil, correspondendo às respectivas fases do desenvolvimento da criança.

Os brinquedos de nossas crianças têm suas origens nas vertentes principais da cultura brasileira, e apresentam traços da cultura indígena, cultura ibérica e cultura africana, tanto na atmosfera como nos temas, aspectos e elementos estruturais. Além dessas fontes primeiras, constatamos ainda marcas evidentes de outras culturas que fazem parte da história do nosso povo. Nas variantes de muitos brinquedos observamos, inclusive, características de diversas regiões e estados do Brasil, e no tom particular ou no perfil de algumas melodias, as marcas da zona rural e urbana e dos diferentes segmentos sociais.

É importante apontar ainda a variedade de estilos destes brinquedos que se configuram como brinquedos cantados, brinquedos ritmados, diferenciando-se ainda como brinquedos rítmico-melódicos e brinquedos melódico-ritmados, segundo o maior ou menor teor de melodia ou ritmo na estruturação musical, e que tem consequências para a definição do caráter e configuração da linguagem de movimento de cada brinquedo.

criancas brincando

Gostaria de assinalar nesta oportunidade que estamos diante de uma tarefa eloquente: buscar avaliar a contribuição dos meninos do Brasil no processo de construção da cultura brasileira buscando compreender seu significado e importância para o futuro do nosso país e a construção da nação que sonhamos.

O material sonoro dos brinquedos cantados estende-se desde brinquedos de uma nota só, com tênue esboço de cadência final, aos brinquedos com âmbito de uma terça, uma quarta, um pentacorde, um hexacorde, e a escala de sete sons inteira. Os brinquedos ritmados se revestem das dimensões rítmicas da palavra e das variações expressivas do discurso poético-musical. As parlendas, cantilenas, lenga-lengas e cantigas são expressões musicais que acompanham os brinquedos das crianças e servem para mover ou sublinhar a ação dos brinquedos das crianças. As parlendas dão ênfase à melódica da fala, fazendo uso de uma voz entonada, de forte apelo rítmico-expressivo; as cantilenas são pequenas inflexões melódicas com dois, três ou quatro sons, um pentacorde, a escala pentatônica inteira ou apenas o seu núcleo. Entre as cantilenas há uma forma particular, as lenga-lengas, que se caracterizam pela presença do elemento de repetição; as cantigas apresentam âmbito mais extenso, chegando a um hexacorde, à escala de sete sons inteira, passando além da oitava superior ou descendo abaixo da tônica, fazendo uso de formas poéticas como a redondilha maior e a redondilha menor, além de formas com estrofes de duas, três, quatro linhas ou mais, diferentes número de sílabas ou não, e uma arquitetônica mais ampla. Estamos, justamente, no reino do imprevisível e inesperado, da graça e inventividade das manifestações da infância!

Como vimos antes, a Música da Cultura Infantil é uma música em movimento, aliada à representação e a uma geometria no tempo, que se explicita por meio do desenho móvel de suas formações: círculos/rodas que giram ou não; linhas/filas, simples e duplas que se deslocam; o ponto/o centro, a criança do meio, o personagem, que vai, vem, volta, espera, permanece ou configura novo movimento...

Não será demais voltar a afirmar, trata-se de uma música no corpo, com o outro, a palavra, o movimento, a ação, o devir... Sua prática promove um convívio alegre, desafiador, e, na observância das regras e princípios de cada brinquedo, as crianças encontram oportunidade de vivenciar múltiplos e variados conteúdos expressivos, experimentar direitos e deveres, em espaço ameno de iniciação à cidadania, por índole e direito, sensível, espontânea, natural, festiva, plena!

Nas variantes de muitos brinquedos observamos características de diversas regiões e estados do Brasil, e no tom particular ou no perfil de algumas melodias, as marcas da zona rural e urbana e dos diferentes segmentos sociais.

Vale dizer ainda, a Música da Cultura Infantil, com seu amplo e variado espectro de manifestações, oferece-se como território natural de vivência da música em todas as suas dimensões, prescindindo das exigências formais de ensino/aprendizagem. E por suas características elementares, ela se configura como o lugar ideal da iniciação, em correspondência inequívoca com a natureza da criança e suas necessidades de crescimento.

Ouçamos Friedrich Schiller, o filósofo e poeta alemão:

"O homem só é inteiro quando brinca.
E é somente quando brinca que ele existe
na completa acepção da palavra Homem."

Creio que estamos todos de acordo que é no brincar que se define a condição humana. E é brincando... ou seja, no gozo de liberdade e inteireza, que a criança revela seu poder e sua graça, sua alegria!

Se queremos contribuir para a renovação do mundo, verdadeiramente, precisamos favorecer o convívio das crianças entre elas mesmas. Brincar é preciso! E para que isso aconteça em plenitude, precisamos levantar a bandeira: Criança / Natureza / Cultura Infantil. Só então veremos brilho nos olhos dos nossos meninos e o mundo novo florescer!

A Música da Cultura Infantil é um fato cultural de grande densidade e beleza. Ela representa, em todas as culturas do mundo, a expressão primeira da alma de um povo, e carrega em seu cerne o poder de um desenvolvimento infinito. Assim sendo, fica evidente a necessidade de atentarmos para seu cultivo desde muito cedo, levando nossas crianças a praticar, desde pequeninas, as mais variadas formas de sua cultura: a voz cantada, a voz recitada, a voz representada, viver uma roda, ter mão na mão, cantar um refrão e tirar um versinho, perceber o valor da palavra, o balanço da cantiga, o "tom" particular de cada melodia, diferentes formas e fraseados, o gosto pelo ritmo, o movimento, a ação e a representação, a expressão de corpo inteiro, a experiência da afetividade e da beleza, tantas promessas de crescimento, liberdade, alegria! Já outros afirmaram, às crianças estaremos devendo sempre o que de melhor sabemos, mais fundo sentimos e mais alto queremos.

Para reconquistar o sonho

Finalmente, gostaríamos de afirmar a Música da Cultura Infantil como fundamento de toda a Educação: uma Educação criadora, que considera o homem em sua inteireza, na interligação, a mente voltada para a maravilha do Universo, a contemplação e a busca, a escuta do movimento dentro...

Queremos afirmar ainda: é no exercício das dimensões da cultura da criança que podemos construir um mundo mais feliz, tecido na unidade, e que já fez parte mais essencial da aspiração humana. No momento, vemos esse ideal ameaçado, sobrevivendo quase somente em comunidades longínquas, perto das nuvens... Mas o reino dos céus é na terra, para todos!

Abandonamos o sonho inadvertidamente e é preciso reconquistá-lo. Deixamos de cantar cantigas de ninar e brincar com nossas crianças, de favorecer os brinquedos com música ao longo de toda a infância, desatentos que estivemos do que é ser criança e da verdadeira essência da vida. A esta altura, conhecemos, sobejamente, o malefício do descaminho. Urge desenvolver uma cultura da roda. Guimarães Rosa é que diz: "A alegria é o val da vida!".

criancas brincando

Temos nos surpreendido com a inquietação de nossas crianças, com a disritmia nas escolas, e culpamos nossos meninos pelo desacordo geral. A situação é mais complexa do que podemos examinar no âmbito dessa reflexão, mas precisamos aproveitar toda oportunidade para avançar. O bem-estar de nossas crianças depende de nós: pais, educadores, autoridades do governo e da Educação, cidadãos, todos nós responsáveis por nossas crianças. Elas estão vivendo em espaços artificiais, sem possibilidades do real intercurso com seus pares, sem respirar ar puro e experimentar as dimensões da natureza, e com ela aprender harmonia e beleza. Detectamos, a cada passo, a ausência de ritmo e proporção, caráter, graça e equilíbrio: as dimensões da música. Urge devolver às nossas crianças o espaço sagrado natural a que têm direito - um tema que hoje ocupa a atenção de toda a humanidade civilizada. Num país de 8.500.000 km2, isto não deveria ser um problema, antes uma predestinação!

Educação com sensibilidade

A música remete ao interno. Vemos com esperança a volta da música às escolas do nosso país. Sua presença em nossos currículos representa a esperança de uma Educação com sensibilidade, onde a Música da Cultura Infantil poderá exercer seu papel de varinha de condão. Mas, para além da vontade de acolher as lembranças da infância e retomar a tradição, é preciso desenvolver uma consciência mais profunda sobre o significado e a importância desse patrimônio, e uma disposição incondicional de levar a florescer a cultura da criança em nosso país.

A Música da Cultura Infantil entre nós ainda não foi contemplada com um levantamento amplo e criterioso, seguido dos estudos necessários, de modo a podermos contar com um conhecimento elaborado, capaz de suprir as demandas de um programa como o que aspiramos. Mas ainda estamos em tempo, com a certeza, inclusive, de que a Música da Cultura Infantil no Brasil é muito mais rica e diferenciada do que supomos ou atestam os discos à disposição no mercado, e que só raramente provam uma noção convincente das dimensões estruturais e simbólicas do repertório explorado.

Aqui devo me referir a uma pesquisa que venho realizando há algumas décadas no município de Serrinha, sertão da Bahia, de onde venho, uma pesquisa que não é exaustiva, nem exceção entre os municípios brasileiros, na qual já foram registrados cerca de 600 brinquedos com música:

O "tom" da Infância em Serrinha:
100 anos de Música Tradicional da Infância
em um Município do Sertão da Bahia

Esse material levantado encontra-se transcrito, classificado e organizado, integralmente. Como metodologia de pesquisa, dividimos o século XX em quatro partes, de 25 em 25 anos, buscando identificar, em cada quarto de século, os respectivos informantes, tanto na cidade como na zona rural. Baseados nesse material foram realizados dois discos, em 2004 e 2016:

1) Ô, Bela Alice...
Música Tradicional da Infância
no Sertão da Bahia no Começo do Século XX

2) Céu, Terra, 51! Cada Vez Sai um...
Brinquedos dos Meninos de Serrinha, Hoje!

Os CDs acima citados diferem entre si significativamente, tanto nas formas e tipos de brinquedos, como no conteúdo e "tom" particular, e aportam, claramente, dois períodos da história de Serrinha, revelados por meio dos brinquedos de suas crianças. Esse projeto de levantamento da Cultura da Criança em Serrinha pretende publicar todo o material levantado e realizar um programa de ações dirigidas às crianças do lugar, com base nos resultados dessas investigações.

Estando nessa busca há muito tempo, posso afirmar sem receio: sob o manto do esquecimento e dos modismos vigentes, subjaz entre nós um grande tesouro à espera de arqueólogos da infância, caçadores do futuro... Naturalmente, é preciso ter encantamento por criança, gostar de brincar e estar iniciado na Cultura da Criança, na Música da Cultura Infantil, para saber procurar, e persistir.

Desejamos, ardentemente, que pesquisas semelhantes sejam empreendidas Brasil afora, para que, muito em breve, possamos conhecer ampla e detalhadamente a criança brasileira, sua natureza, sua índole, seu movimento, seus talentos, seus sonhos, sua cultura e, assim, chegarmos a saber o Brasil por meio de seu patrimônio primeiro. Acreditamos no valor dessa busca. Ela nos levará a compreender nossa história, a grande diversidade cultural deste país imenso e mestiço, sua natureza, sua aspiração, suas dimensões imateriais, seus sonhos, pedras fundamentais da nação que queremos.

A Música da Cultura Infantil é um fato cultural de grande densidade e beleza. Ela representa, em todas as culturas do mundo, a expressão primeira da alma de um povo, e carrega em seu cerne o poder de um desenvolvimento infinito.

Vivemos um tempo de muitos estímulos, mas, certamente também, de muitíssimas solicitações desencontradas. É preciso recuar um pouco para refletir. Entre outras coisas, sobre o sentido de origem e pertencimento. Temos sido avassalados, ao longo dos tempos, por intromissões inaceitáveis, por um assédio maciço de valores estranhos à nossa cultura. Até os rincões mais longínquos do país se estende o processo perverso de destituição da alma nacional. Uma história antiga e, por isso mesmo, provavelmente, o sucesso das investidas ulteriores. E em meio à dissonância geral se encontram nossas crianças!

Urge refletir:

Onde é o nosso território?
O que significa para nós termos nascido no Brasil?
O que nos faz diferentes?
Qual é a nossa graça, a nossa fé?
Que aspiração temos, nós brasileiros?
Em que consiste o nosso valor?
Quais são os versos que queremos cantar na RODA DAS CRIANÇAS DO MUNDO?

É preciso despertar para uma consciência de Brasil e nos empenharmos, de todo o coração, nesta busca admirável.

Como já foi assinalado, ainda está por ser feito um mapeamento, uma pesquisa ampla e consequente da Música da Cultura Infantil em nosso país. Que se sintam convocados todos aqueles que têm fé na criança e amam o Brasil. Serão muitos! Precisamos de todos. Teremos que dar o melhor de nós. Muitas alegrias nos esperam e, em breve, veremos chegar à frente as nossas crianças, e o Brasil surgir do sonho de seus filhos maiores!

criancas brincando

E, nessa tarefa de busca da nossa alma ancestral, é a Música da Cultura Infantil, justamente, o instrumento mais precioso. Por meio de sua prática, estaremos restabelecendo o laço afetivo com a língua, a língua-mãe, não aquela da rede televisiva ou dos livros de escola, mas a que está nas cantigas de ninar e nos brinquedos de nossas crianças, tão carregados dos encantos e mistérios da infância do nosso povo, dos múltiplos arquétipos de nossa cultura. E com a língua-mãe musical, a canção popular, que soa nesses brinquedos com o viço, a graça e doçura de nossas crianças, e em toda a cultura popular, viva, variada, mestiça, onipresente, no corpo e na voz dos nossos brincantes, cantadores e poetas. Ao cultivar as palavras da origem, estaremos restabelecendo o laço afetivo com a língua. O poeta Fernando Pessoa é quem diz: "A língua é a pátria!" E estaremos favorecendo também, certamente, uma disposição fundamental para a beleza, o imaginário, o sonho...

De resto, nunca foi tão necessário cantar! E, num país ele mesmo menino, é preciso que venhamos compreender o verdadeiro significado e o valor da infância e manifestar as dimensões da Cultura da Criança.

Finalizando, gostaria de relembrar alguns brinquedos de nossa infância:

Cantigas de ninar
Amigo Besouro
Balança a rede
Bão-ba-la-lão
Boi de currá
Dan-dan, squidin-dan
Sururu, Menino mandu br Xô, xô Pavão

Brincos
Baladum, baladum, baladum
Dandá pá ganhá vintém
Dedo mindinho
Macaco pisa o milho
Meu periquitinho verde
Pelelei, liquitão
Serra, serra, serrador

Brinquedos cantados
Abre a roda, tin do lê lê
De onde vem aquela menina?
Fui à Bahia buscar meu chapéu
Gato-Preto-Maranhão
Pai Francisco entrou na roda
Senhora, Dona Sancha
Você gosta de mim, ô

Brinquedos ritmados
Chicotinho queimado
Escravos de Jó
Ôi, Jerimum já ramou, já botou
Olha o Camaleão
Ordem, seu lugar
Siriri, capê
Ta-ta-ra-ra-ta-chim

Brinquedos da Cultura Infantil contemporânea
Ai, ona, ona ê
Ana Maria ficou de catapora
Andoleta
Lenha, la-enha
Maria Madalena foi ao sítio de Belém
Quando eu era neném
1, 2, 3, chinelinho

Histórias cantadas/brincadas
Aninha e o Príncipe
Os Brinquinhos de ouro
As Cabritinhas e o Jacaré
A Gaita do Cágado
A história da Coca
A linda Rosa juvenil
Onde está a Margarida?

Rodas de verso
Gavião tava sentado
Marinheiro chora, tin do lê lê
Meu limão, meu limoeiro
Morava na areia, sereia
Ó que noite tão bonita
Ô, Rosa Espera
Passa pra lá, passa pra cá, ô jundiá

E agora, vamos brincar?

Mão na mão,
todos na roda,
a cada um o seu verso,
e um só coração...

Referências


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